Em uma “casinha” perto da praia, na região de Barlovento, no estado de Miranda, Zaida Rangel, professora aposentada de 60 anos, tinha finalmente conseguido pegar no sono, quando o marido a acordou. Em processo menopáusico, sofria de insônia e, naquela madrugada de 3 de janeiro de 2026, só dormiu por volta da 1h30 da manhã. Menos de uma hora depois levantou da cama com a notícia de que Maduro havia sido levado por militares norte-americanos.
Zaida também ficou em choque com a proximidade entre os ataques e a casa onde estava. Ela e o marido vivem em Sucre, município no estado de Miranda, na área metropolitana de Caracas. Foram a Barlovento apenas para passar o recesso de Natal e ano-novo. Naquela noite, a 130 km de Caracas e a menos de 15 minutos do lugar onde dormiam, o Aeroporto de Higuerote foi um dos estabelecimentos bombardeados pelos EUA. Alguns vizinhos até chegaram a escutar as explosões, conta a professora aposentada que naquele momento já se encontrava em um sono profundo.
Conforme os acontecimentos do 3 de janeiro se desenrolavam, a indignação de Zaida aumentava. “De nenhum ponto de vista posso aceitar que um país invada outro. [...] Somos um país soberano e temos o direito e a liberdade de decidir nosso governo”.
Apesar de se considerar de esquerda desde nova, Zaida conta que nem sempre foi chavista. “Na primeira eleição de Hugo Chávez, eu votei numa mulher que foi Miss Universo, prefeita e que depois se candidatou à presidência”. A mulher em questão se chamava Irene Sáez (Copei). Formada em Ciência Política, foi eleita duas vezes prefeita do município de Chacao, no Distrito Metropolitano de Caracas. Em 1998, concorreu à presidência e perdeu para Hugo Chávez, conhecido por ser um líder do bolivarianismo.
Em 11 de abril de 2002, uma tentativa de golpe de estado levou o presidente Hugo Chávez a ser afastado do poder por 47 horas. Foi a partir desse episódio que Zaida passou a se considerar chavista. Entre as conquistas do governo, segundo a professora, está a pensão digna aos aposentados, incluindo as donas de casa, além de políticas voltadas à inserção de pessoas com deficiência no mercado de trabalho.
“Quando Nicolás Maduro assume a presidência anos depois, nos declaram como uma nação perigosa para os Estados Unidos. Estávamos bloqueados, mas, mesmo assim, o presidente Maduro conseguiu fazer a economia do país crescer”, explica. A professora, no entanto, admite que o salário continuava insuficiente. Para receber uma renda maior, voltou a dar aulas, depois de um tempo já aposentada.
Ela relembra com saudosismo do período em que Chávez estava no poder e conseguiu viajar para fora do país. “Fui ao Peru, fui ao Equador, fui à Itália”.
Hoje, Zaida sonha em conhecer a Costa Rica, onde moram o filho, de 39 anos, e a neta, de quatro anos. Ela conta que gostaria de abraçá-los, tocá-los e senti-los, mas nunca pensaria em abandonar o país natal e morar em outro lugar.
Ao ser questionada sobre o que mais gosta na Venezuela, diz com orgulho: “somos alegres. Isso é o que mais gosto do meu país”.
Termina a entrevista com um convite: “Venham conhecer a realidade, vejam o que estamos fazendo aqui. Já se falou muito mal da Venezuela. Passamos por momentos muito tristes, muito amargos, muito duros, mas que também superamos. [...] Os níveis de violência baixaram e agora há bastante paz, muita tranquilidade [...] Temos montanhas, neve, dunas, desertos, rios, praias. Temos muitas coisas lindas para mostrar aqui”.
Reportagem produzida como Trabalho de Conclusão do Curso de Jornalismo no semestre 2026.1
Reportagem: Clara Spessatto e Júlia Santos da Rosa Matos
Edição de vídeos e áudios: Clara Spessatto e Júlia Santos da Rosa Matos
Identidade visual e webdesign: Clara Spessatto e Júlia Santos da Rosa Matos
Orientação: Melina de la Barrera Ayres
Florianópolis, 30 de junho de 2026
Universidade Federal de Santa Catarina
Centro de Comunicação e Expressão
Curso de Jornalismo
